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Nós que aqui estamos... por vós não esperamos.

Débora Novaes de Castro

Último fim de semana, agosto. Sala de espera do Espaço UNIBANDO, aguardando a abertura da bilheteria 3, para a compra de ingressos para o filme “nós que aqui estamos, por vós esperamos”, de Marcelo Masagão. Faltam 10 minutos para a hora anunciada. Passo uma vista d’olhos pelos cartazes e, bem à vista, em primeiro plano, um enorme cartaz com Grande Otelo e Oscarito - é o maior de todos... e bem de frente! Penso em Otelo, que apesar da fama, e, segundo dizem alguns, morreu pobre e sem dinheiro; contudo, estava ali, a postos, como um soldado pronto para a luta, aumentando a bilheteria e vestindo seu personagem para a admiração de tantos quantos, de uma forma ou outra, o conheceram. E Oscarito!... Um dos nossos grandes valores humorísticos!... Quem não se lembra das suas gazarrices?... Tanto um, como outro, sem sombra de dúvida, glórias do nosso cinema.
Bem, a moça da bilheteria já está a postos, e a fila (costumeira, como sempre) já se alonga.
Comprados os bilhetes, nova espera... na fila, é claro... Numa divisória (vidraça), recortes de jornal, noticiando os filmes. Procuro o nosso e vejo que se trata de filmagem da mesma escola de Eiseinstein (quase que só imagens, pouquíssimas palavras); só que no caso, um documentário.
Alguém avisa que o catraqueiro já assumiu seu posto. Aos poucos, a catraca vai engolindo a fila... - Ufa! Bem na hora! Na horinha mesmo!!! Segundo dito de alguns, “coisas de não brasileiros”... mas “acontece nas melhores famílias”.
Subimos então as escadas em direção à Sala 3 e tomamos assento mais ao fundo, por ser o espaço um tanto quanto limitado.
Bem, mas vamos à produção, que os primeiros acordes sonoros, seguidos de imagem vibrante e contagiante, invade toda a sala.
Na abertura, como já se espera, a propaganda 10 do UNIBANCO (o caleidoscópio do tempo, o diálogo das crianças valorizado grandemente pela cinematografia); depois Marcos Nanini, em tudo e por tudo também 10; seguindo-se cenas de “Dois Córregos” e outros, de outras salas, do mesmo Espaço.
E nuvens... tufos de nuvens branquinhas como algodão, bolotas de algodão doce que centenas de anjos, como meninos sapecas da terra, estariam jogando uns nos outros... e nelas, janelas mágicas do tempo, retalhos do século XX a desfilarem no caleidoscópio do tempo, os tentos inventivos, a industrialização, as guerras, um cemitério; a chegada do homem à lua, retratos em porcelana emoldurados de flores de bronze; os grandes estadistas, as conquistas, as derrotas, uma cruz quebrada com uma guirlanda de flores mortas; a cítara de mulheres nos copos de água, saltando para a vida, os egoísmos; outra vez a mudez dos cemitérios oscilando números (1, 2, 3, 4... 8); os antagonismos políticos, a arte, o despotismo; de novo as mulheres arrancadas dos afazeres domésticos fabricando bombas...; um anjinho caído com uma das mãos erguidas; finda a guerra, o mundo feminino perde-se na rotina dos dias; cova aberta e um coveiro; o holocausto, os “inocentes de farda” e os inocentes abatidos pela farda; cruzes, muitas cruzes e inscrições; os homens robotizados apertando porcas... a Ford; a cena dos cemitérios que iam e vinham sem serem convidados, oscilando nomes e datas...
Dessa mostra, recolho duas lâminas: uma, paisagem de sinos, como fossem serem humanos, espectadores anônimos à espera do que viria... um sino de igreja sendo retirado... os pobres santos (que não cometeram mal algum, e nem estavam nesse mundo, naquele momento maluco), sendo retirados da igreja, para que ali fosse instalado um posto de serviços do novo conquistador - outra, um aglomerado de homens de bigodes: ralos e finos como o de Hítler, médios e grossos... todos os tipos... vistos no caleidoscópio do tempo e espiralados no nada... fico pensando no bigode avantajado de Jânio, que à essa altura, lá das alturas, estaria reivindicando a inclusão nessa seleção.... Contudo, brincadeiras à parte, campas e cruzes num cemitério, dão-nos conta de que somos pó, e ao pó retornaremos.
A sonoridade,crescente... ruidosa... intermitente, remetia-nos à dinâmica da industrialização.
Ao fim do filme, o portal de entrada de um cemitério com os dizeres: “nós que aqui estamos, por vós esperamos” – o nome do filme - quando o espectador já sabia do que se tratava e o tinha identificado.
Há poucos dias, alguém mencionou um “nome esquisito” de cemitério. Pelo visto, Masagão, por algum sortilégio do destino, também o conhecia. Como a Otelo, Oscarito e Nanini, mais um 10 na parada.
E o dístico no portal do cemitério... muito embora não querendo, concordo plenamente; embora queira (se os céus permitirem) continuar por aqui, por mais um bom tempo.
Finalizando, volto à paráfrase do título “nós que aqui estamos, não esperamos por vós” Descansem em paz. Amém.

outubro, 1999
São Paulo-SP

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