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TEMPO DE PRIMAVERA

Débora Novaes de Castro, Da sua publicação, 4 títulos em poemas haicais: Soprar das Areias, 1987; Aljôfares, 1989; Sementes, 1992 e Chão de Pitangas, 2002. Atualmente pesquisa a poética do Haicai no Brasil. In: LINGUAGEM VIVA, set. 2003.

TEMPO DE PRIMAVERA.
UMA FLORADA DE HAICAIS BRASILEIROS
Débora Novaes de Castro*

Haicais (haikais ou hai-kais) são imagens colhidas pela sensibilidade do observador, no instante único da sua realização. É um micropoema, titulado ou não, formado por 3 versos, de dezessete sílabas (origem oriental) ou silabação livre (origem ocidental moderna), de uma única significação, tendo como tema de relevância a natureza.

Para a apreciação dos leitores, uma seleção de flores-haicais, colhidas no canteiro da ANTOLOGIA DO HAICAI LATINO-AMERICANO, ANTOLOGIA DEL HAIKÚ LATINOAMERICANO, organizada por Humberto Senegal, H. Masuda Goga, Roberto Saito e Francisco Handa, Aliança Cultural Brasil Japão e Massao Ohno, São Paulo-SP, 1993:


ABEL PEREIRA
PRECIOSIDADE

Para contar mágoas,
inclina-se a haste franzina
no espelho das águas


AFRÂNIO PEIXOTO
COMPARAÇÃO

Um aeroplano
Em busca de combustível
Oh! É um mosquito.


ALONSO ALVAREZ
Borboletas amarelas
no ipê, revoada
de flores apaixonadas.


CLÍCIE PONTES
Relâmpago na noite!
Revelando na colina
A capela branca...


CYRO ARMANDO CATTA PRETA
SONO
Incorpóreo fujo,
sonhando me libertando
do meu caramujo.


DÉBORA NOVAES DE CASTRO
na ribalta
uns restos de luar
dançarinos solitários


EDSON KENJI IURA
Operários somem
Ao longo da passarela
Envolta na névoa.


FRANCISCO HANDA
Nos canaviais
facões refletem a luz
do sol explodindo.

.
GUILHERME DE ALMEIDA
CIGARRA
Diamante. Vidraça.
Arisca, áspera asa risca
o ar. E brilha. E passa.


H. MASUDA GOGA
Ipê milenar
numa fazenda em ruínas
auge da florada!


HAZEL DE S. FRANCISCO
Sol a pino.
Só o sibilo da cigarra
quebra a calmaria.



OLGA SAVARY
Que arda em nós
tudo quanto arde
e que nos tarde a tarde.


ROBERTO SAITO
Fina folha se desprende
e levemente toca
os pedregulhos.


TERUKO ODA
Luz crepuscular
O último arco-íris
Na ponta do pinheiro!


Nos haicais apresentados, encontramos singularidades próprias de cada autor, manifestadas pela adoção dos modelos escolhidos: o Oriental ou Ocidental; e ainda fundindo-se os dois em um, como é o caso dos haicais guilherminianos (que segue o modelo criado e utilizado por Guilherme de Almeida), que têm título, rimas, uso de maiúsculas e minúsculas, e pontuação.
O haicai do Oriente, via Japão e Europa, se faz brasileiro e “habita entre nós”.

***

* Débora Novaes de Castro, artista,plástica, professora e escritora. Da sua publicação (especialmente, poesia), 4 títulos em poemas haicais: Soprar das Areias, 1987; Aljôfares, 1989; Sementes, 1992 e Chão de Pitangas, 2002. Atualmente, entre outras atividades artístico-literárias, pesquisa a Poética do Haicai no Modernismo Brasileiro.

( publicado em LINGUAGEM VIVA, SET. 2003)

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